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Ainda não foi desta vez

| 21/08/2008

Se alguém imaginava que Lula ficaria embaraçado com a polêmica envolvendo a tortura durante a ditadura, pode esperar por uma nova oportunidade. Entre a esquerda e os militares, o presidente escolheu os dois, ou nenhum - e deu o caso "por encerrado"

 

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Por J.R. Guzzo

exame

Os brasileiros tiveram direito, na semana passada, a mais um seminário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a respeito do que está certo e do que está errado neste país - coisa curta, como de costume, o que é uma das grandes vantagens das aulas presidenciais, e grossa, o que é outra. O tema, desta vez, foi a discussão sobre os crimes de tortura praticados durante o regime militar e de que são acusados oficiais das Forças Armadas. Em tese, é assunto complicado, porque mexe com militares, e quando isso acontece sempre aparecem na imprensa e no mundo político preocupações. Será que vai dar problema? Será que os militares vão ficar bravos? Na prática, pode não haver complicação nenhuma, dado o número cada vez menor de gente interessada na discussão ou, até mesmo, informada de que essa discussão existe. Como o movimento "Cansei" e outras chuvas de verão, o tema pode simplesmente cair em exercício findo e sumir do mapa. Mas o presidente não poderia ignorar que membros de seu governo e de seu partido criaram uma situação de conflito verbal com as Forças Armadas, igualmente subordinadas a ele, ao sustentar que crimes de tortura não foram anulados pela anistia e, portanto, seus autores têm de ser punidos. Decidiu dar seu veredicto, e veio com mais uma daquelas tiradas que vão fazer parte, um dia, de seu livro de máximas e ensinamentos.

"Toda vez que falamos dos estudantes e operários que morreram, falamos xingando alguém que os matou", disse Lula. "Na verdade, esse martírio nunca vai acabar se a gente não aprender a transformar nossos mortos em heróis, e não em vítimas." A saída para o empurra-empurra entre seus liderados civis e seus comandados militares, assim, seria parar o xingamento dos que mataram ou bateram e passar à louvação dos que morreram ou apanharam. Há dois problemas sérios aí, um com a primeira parte da proposta e outro com a segunda. O primeiro problema é que não há xingamento. Quem diz que os crimes de tortura não se enquadram na lei da anistia não está xingando ninguém; pode ter as melhores ou as piores intenções, mas, em qualquer dos casos, está apenas dizendo isso mesmo, ou seja, que os crimes de tortura não se enquadram na lei de anistia. O segundo problema é que não há heróis. Quem foi torturado ou assassinado pelos serviços de repressão do regime militar não estava lutando pela democracia; estava querendo substituir uma ditadura por outra. Os que se envolveram na luta armada não sofreram por serem democratas, e sim porque tentaram derrubar o governo pela força e foram derrotados.

Podem ser vítimas, exatamente ao contrário do que Lula sustenta, mas não são heróis - e, se o presidente acha mesmo que "esse martírio" só acabará quando o povo brasileiro transformar os mortos da repressão em novos Tiradentes, vai passar o resto da vida esperando por isso. Para os que brigaram (ou dizem que brigaram) com o regime militar e permanecem vivos, o governo pode dar, e dá, dinheiro - em forma de pensões, indenizações ou empregos. Não pode fazer, nem com eles nem com os mortos, que virem algo que nunca foram.

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