A Olimpíada fez com que grande parte da atenção mundial se voltasse para a China neste ano. Por causa do Tibete e do Sudão, a imagem internacional da China provavelmente piorou, mas, em casa, os sentimentos de orgulho e unidade nacionais, com certeza, se fortaleceram. Somando os prós e os contras, o resultado foi positivo para o país. Essa reflexão me fez pensar sobre como a imagem de outros países emergentes mudou em 2008. O que, em particular, aconteceu com a Índia, o outro gigante da Ásia? Recentemente, o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, declarou que o voto de confiança ganho no Parlamento pela coalizão governante "transmitira ao mundo uma mensagem de que a cabeça e o coração da Índia estão sólidos". Nessa mesma ocasião, Singh disse que a Índia "estava preparada para assumir seu merecido lugar no concerto das nações". Infelizmente, não está nada claro que o mundo tenha captado essa mensagem.
O que levou o primeiro-ministro a pedir um voto de confiança do Parlamento foi o acordo nuclear entre a Índia e os Estados Unidos assinado há três anos. Como os comunistas, que eram parte da coalizão governante, se opunham à aproximação com os Estados Unidos, o acordo ficou parado desde que foi assinado pelo próprio Singh e por George W. Bush, em 2005. Por isso, mesmo pessoas simpáticas ao primeiro-ministro agora se perguntam: por que ele demorou tanto para viabilizar sua aprovação? Graças ao apoio do Parlamento recém-conquistado, o governo está fazendo reformas nas regras sobre investimentos estrangeiros diretos e aposentadoria, entre outras medidas econômicas necessárias. Por que, de novo, ele esperou tanto tempo para montar o apoio parlamentar para essas reformas econômicas? Afinal, Singh é um economista respeitado e sabe perfeitamente o tanto que as reformas são importantes para o futuro da Índia.
As respostas estão, é claro, na traiçoeira areia movediça da política indiana, mas a imagem do país no exterior não é moldada pelos cálculos dos caciques locais. Imagem externa é conseqüência de impressões e ações. E a impressão que ficou desse episódio fortaleceu a visão de que a democracia indiana é uma confusão - ao mesmo tempo um impulso e um obstáculo ao progresso. Fora toda a questão política, houve uma deterioração do quadro macroeconômico. Há um ano, a Índia impressionava com um crescimento anual do PIB acima de 9% e um banco central decidido e bem-sucedido na contenção da inflação. O lançamento, em janeiro, do carro Tata Nano, o mais barato já produzido no mundo, foi, para muitas pessoas menos informadas, um acontecimento nacionalmente mais significativo do que qualquer aquisição de marcas estrangeiras por empresas indianas, pois mostrava ao mundo que a Índia era capaz de um design avançado, de uma engenharia inteligente e da fabricação a baixo custo. A nova Índia, assim parecia, não se faria mais apenas em Bangalore e Hyderabad, mas também nas fábricas e nos escritórios de design de fabricantes de categoria mundial. Mais ainda: com um clima macroeconômico estável e acesso a mercados globais de capital, havia uma boa chance de que a infra-estrutura necessária para respaldar esses fabricantes fosse finalmente construída.
Não tão estável como parecia
As imagens internacionais muitas vezes não batem com a realidade, em especial com a realidade econômica. É por isso que essa visão positiva da Índia ainda pode prevalecer. Mas por quanto tempo? Com a inflação de novo acima de 12% e o banco central correndo atrás dos fatos com seu arrocho monetário, a idéia de que a Índia é hoje monetariamente estável não durará muito - em particular com os subsídios aos combustíveis elevando o déficit do governo de novo a 10% do PIB. Talvez com a queda corrente nos preços do petróleo, o déficit e a inflação diminuam e o crescimento não desacelere demais. Mas isso não está minimamente garantido.
Deixando as questões de política interna e da economia de lado, o que dizer das ações da Índia "no concerto das nações", para usar a imagem do primeiro-ministro Singh? Com isso, ele parece ter querido dizer o respeito às leis, instituições e interesses de outros países. Neste ano, em dois casos, muitas pessoas sentiram que o respeito da Índia por instituições externas foi um pouco longe demais. No primeiro caso, muita gente ficou chocada com a maneira como a Índia recuou para agradar a China, bloqueando o que pareciam protestos pró-Tibete legítimos durante a passagem da tocha olímpica. Antes, o governo já havia mantido um silêncio constrangedor diante da falta de reação de Mianmar após a passagem de um ciclone devastador em maio. Em razão das realidades geográficas e geopolíticas, essas decisões provavelmente só mancharão de leve, se é que mancharão, a imagem global da Índia.
O mesmo não se pode dizer da posição que a Índia adotou na rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio, em Genebra, no fim de julho, uma questão muito mais preocupante para o Brasil. No passado, a determinação de preservar proteções comerciais teria sido amplamente aceita vindo de um país como a Índia, pois, em assuntos de comércio, a simpatia internacional repousa com freqüência no mundo em desenvolvimento, e não no Ocidente supostamente explorador. Nesse caso, porém, foi diferente. As vítimas da obstinação da Índia não foram empresas multinacionais do Ocidente. Foram outros países em desenvolvimento, geralmente mais pobres, que com isso perderam um acordo comercial que lhes era benéfico. Perderam também países de renda média, como o Brasil, cuja posição construtiva durante as conversações na OMC provocou muitos comentários positivos a favor da imagem global desse país. A Índia e a China ficaram juntas pela primeira vez de uma maneira que muitos viram como a representação de um futuro incômodo: os dois gigantes emergentes se ajudando mutuamente em detrimento dos pobres.
Será isso justo? Infelizmente, sim. O que os países mais pobres viram foi a determinação da Índia de proteger seus agricultores não de aumentos das importações americanas, mas dos alimentos vindos da África e da Ásia. Politicamente, a medida pode ter feito sentido. Há uma eleição geral despontando até, no máximo, maio de 2009 na Índia e, nos últimos anos, os agricultores indianos sofreram muitas privações econômicas. Mas um preço terá de ser pago pela Índia em termos da imagem internacional, uma imagem que, ao longo de 2008, tem perdido um pouco de seu charme.

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