Certa vez, o rebatedor Mark McGwire, um dos maiores jogadores da história do beisebol profissional, assim definiu o perfil do americano típico: “Nós gostamos de força, carros grandes e pessoas grandes”. Parte dessa sentença já não faz hoje tanto sentido. O caso de amor dos motoristas dos Estados Unidos com as picapes e os utilitários esportivos, também conhecidos pela sigla SUV, nunca esteve tão ameaçado. A alta no preço da gasolina e a patrulha ecológica estão entre os principais responsáveis pela derrocada desses veículos, conhecidos por ser beberrões incorrigíveis de gasolina e, por conseqüência, líderes na emissão de poluentes na atmosfera entre os automóveis. A venda de utilitários no mercado americano registrou, desde o início do ano, queda de 34%, enquanto a de picapes sofreu baixa de 25% no período. São números muito significativos, considerando-se que o mercado para esses automóveis já vinha diminuindo nos últimos anos. Ao mesmo tempo, cresceu no país o interesse por modelos menores e mais econômicos. Nada mais simbólico dessa nova era do que a trajetória da F-150, picape da Ford que reinou absoluta por quase três décadas no topo do ranking dos modelos mais vendidos na América, com seus mais de 200 cavalos de potência e consumo médio de 1 litro de combustível a cada 6 quilômetros rodados. Em maio, a F-150 caiu para o quinto lugar da lista, atrás de sedãs das montadoras japonesas Honda e Toyota.
Ao lado do rock’n’roll e do cheeseburger, os carrões são um dos maiores ícones da cultura de consumo dos Estados Unidos. Além de sinalizar uma mudança histórica no padrão de comportamento dos motoristas americanos, o fenômeno da queda nas vendas contribuiu para agravar os problemas econômicos das Big Three de Detroit — Ford, GM e Chrysler. Para quem já vinha sendo bastante fustigado por questões como os rombos nos fundos de aposentadoria dos funcionários e a concorrência asiática, o réquiem das picapes e dos utilitários é uma nova tremenda dor de cabeça. No auge da popularidade dos carrões, eram vendidas quase 6 milhões de unidades desses veículos por ano nos Estados Unidos. Hoje, o volume é um terço disso (veja quadro). “Quando a gasolina ultrapassou o patamar de 3,50 dólares por galão, foi a gota d’água para o consumidor”, afirmou Bill Ford, presidente do conselho de administração da Ford, numa entrevista recente à revista americana Newsweek. “Da noite para o dia, literalmente, as pessoas pararam de comprar picapes e SUVs e passaram a procurar carros menores e mais eficientes. A queda nas vendas foi dramática, conseqüentemente”, disse Ford, justificando o prejuízo de quase 9 bilhões de dólares registrado pela montadora no segundo trimestre de 2008.
Nas últimas décadas, os grandes fabricantes ganharam muito com a venda de picapes e utilitários. Esses veículos chegaram a ser responsáveis por mais de 50% das receitas da Ford em 2004. Em 2008, a participação caiu para 35%. A situação atual obrigou as montadoras a fazer duros ajustes em seu modelo de negócios. A Chrysler anunciou recentemente um plano de 1,8 bilhão de dólares para converter uma fábrica de jipes Grand Cherokee numa unidade especializada na montagem de carros menores. Suas vizinhas de Detroit adotaram políticas semelhantes. A Ford, por exemplo, transformará, até 2010, três de suas quatro unidades antes dedicadas a picapes e SUVs em fábricas dos carros de passeio Focus e Fiesta. Ícones do período áureo dos carrões também vêm perdendo rapidamente o prestígio no mercado. É o caso do Hummer, jipe usado pelos militares americanos na Guerra do Golfo, em 1991. Sua versão para civis foi lançada no ano seguinte e imediatamente virou objeto de desejo de milionários e colunáveis. Em 1999, a GM comprou a marca, achando que estava fazendo um grande negócio. Agora, o Hummer é apenas um problema a ser administrado. Somente nos primeiros cinco meses de 2008, a venda das três versões do veículo caiu quase 40% nos Estados Unidos. Sem condições de suportar o prejuízo, a GM colocou a marca à venda.
As montadoras que possuem esse tipo de carro em seu portfólio não sofrem apenas com problemas comerciais. Nos últimos tempos, picapes e utilitários passaram a ser demonizados pela patrulha politicamente correta, o que esbarrou na imagem e na marca de seus fabricantes. Na Europa, ativistas esvaziam os pneus dos carrões estacionados nas ruas como forma de “despertar a consciência ecológica de seus proprietários”. Alguns mais radicais riscam a lataria e chegam até a cuspir nos motoristas que dirigem esses modelos. Nos Estados Unidos, uma ONG evangélica lançou uma campanha em quatro estados que trazia a seguinte pergunta: “Que carro Jesus dirigiria?”. Segundo o grupo, Cristo jamais apareceria a bordo de um SUV. Outras entidades costumam protestar durante os principais salões de automóvel do mundo, cobrindo com orelhas de porco a lataria dos veículos mais gastadores de gasolina.
Numa tentativa de contornar parte do problema, os fabricantes resolveram investir na fabricação de jipes e picapes híbridos. O primeiro modelo surgiu em 2004, lançado pela Ford. Hoje, existem nove utilitários semelhantes à venda nos Estados Unidos e há outros cinco com chegada ao mercado prevista até 2010. Esses veículos permitem, em média, economia de 30% em relação aos modelos movidos a combustíveis fósseis. Até a marca Hummer criou o protótipo de um modelo verde. O carro foi oferecido de presente a Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia, estado que tem a legislação mais radical dos Estados Unidos contra veículos poluidores. Não há previsão de lançamento comercial do Hummer verde. No Salão de Detroit, realizado em janeiro, nos Estados Unidos, foram divulgados outros modelos de jipões ecologicamente corretos. A Land Rover apresentou o LRX, carro-conceito equipado com motor híbrido que pode rodar com diesel e biodiesel. Sua concorrente Chrysler, após apresentar a Dodge Ram 2009 convencional, com direito a desfile de bois e vacas em plena Washington Boulevard durante o evento, anunciou uma versão verde do jipão, com previsão de lançamento para 2010. Um dos problemas desses veículos é o custo, cerca de 30% mais alto que o de um modelo convencional.
Outra medida que está sendo colocada em prática pelas montadoras para salvar os carrões é investir em países emergentes, onde esses veículos ainda têm apelo comercial e são vistos como símbolo de status. Na China, a venda de utilitários e picapes cresceu 50% em 2007. No Brasil, na Rússia e na Índia ocorre fenômeno semelhante. Isso explica o motivo pelo qual há alguns empresários desses países interessados nas marcas de jipes, enquanto as Três Grandes de Detroit tentam se desfazer delas. No início de agosto, o bilionário russo Oleg Deripaska foi citado pelas agências internacionais de notícia como o responsável por uma oferta para a compra da Hummer — informação negada posteriormente por ele. A indiana Tata Motors, que já arrematou recentemente a Land Rover, também estaria na briga pela marca da GM. Mas os executivos de Detroit são bastante realistas quanto a essa movimentação. Mesmo que os mercados dos países emergentes estejam crescendo a uma velocidade impressionante, os Estados Unidos ainda concentram a maior parte das vendas mundiais de veículos. Com o iminente fim da paixão dos americanos pelos carrões, qualquer estratégia comercial pode, no máximo, adiar o réquiem que está por vir.
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