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O remédio pode estar errado

 | 27.11.2008

As medidas do governo para jogar dinheiro no mercado esbarram num problema complicado - ninguém quer emprestar a ninguém

 

Sebastião Moreira/AE

Pátio da Volks: ajuda às montadoras é suficiente para dois meses de vendas

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Por Fabiane Stefano*

Revista EXAME  

O agravamento da crise mundial e a conseqüente escassez de crédito têm instigado o apetite por recursos públicos das mais diferentes procedências. Em outubro, a agricultura brasileira conseguiu do governo 5 bilhões de reais em crédito para o financiamento da atual safra de grãos. Em novembro, os ruralistas pleiteavam outros 3,5 bilhões de reais para enfrentar a crise. As montadoras também ganharam seu quinhão. Foram 8 bilhões de reais liberados pelo Banco do Brasil e pela Nossa Caixa, de São Paulo, para os bancos das montadoras, que financiam a compra da maioria dos carros novos no país - dinheiro correspondente à necessidade de apenas dois meses de vendas. "Se as linhas normais não forem restabelecidas, o setor vai precisar de uma nova rodada de crédito", diz Luiz Montenegro, presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras. Nas últimas semanas, o governo injetou 52 bilhões de reais para reativar o crédito em diferentes setores da economia brasileira. O número não leva em conta outros 56 bilhões de reais em liberação de depósitos compulsórios, recursos antes bloqueados pelo Banco Central, e muito menos os mais de 100 bilhões de reais direcionados à venda de dólares à vista para o comércio exterior. Tudo somado, desde que a crise deixou de ser mera hipótese para se transformar em perigo imediato, o governo brasileiro já destinou mais de 200 bilhões de reais para conter os estragos da turbulência global. Todas as medidas visam a um único propósito: garantir liquidez no mercado para girar o motor do crédito. Mas, a cada novo dia da crise, esse volume de recursos parece mais insuficiente para tapar todos os buracos abertos na economia - até porque, a cada novo dia da crise, outros setores, entidades e empresas se apresentam para receber algum tipo de ajuda.

Até que ponto jogar dinheiro público no mercado faz sentido para uma economia na situação da brasileira? E como escolher quem será beneficiado? Os sinais de efeito, até agora, não são muito animadores. Na primeira quinzena de novembro, houve um recuo de quase 20% na venda de carros novos - embora fontes do governo afirmem que já há sinais de recuperação do crédito. O número de geração de empregos formais também havia caído em outubro, quando parte das medidas já havia sido anunciada. E, mesmo depois delas, as expectativas do empresariado não melhoraram: quase 60% da indústria prevê vendas menores em 2009, de acordo com sondagem da Confederação Nacional da Indústria. "As medidas são paliativas. Ajudam, mas não resolvem o problema real, que não é de falta de dinheiro", diz Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central. "A questão é que os recursos continuam represados nos grandes bancos."

Nos últimos anos, o crédito tem cumprido um papel essencial na economia brasileira. Hoje, o crédito equivale a 39% do PIB, percentual ainda considerado baixo perto de outras economias emergentes, como o Chile e a China, que emprestam, respectivamente, 82% e 114% do PIB. Mas esse indicador tem avançado rapidamente no Brasil - em 2005, essa relação era de 28%. A rápida expansão mostra como o crédito se tornou um dos principais motores da economia - e é esse motor que mais está sentindo os efeitos da crise internacional. A turbulência nos mercados provocou um fechamento quase total das linhas externas, antes captadas pelos bancos e pelas grandes empresas, o que sobrecarregou o sistema nacional. Com menos dinheiro externo e mais incerteza no mercado, os bancos reduziram prazos e aumentaram taxas de juro e garantias - e isso afugentou a clientela. O resultado é que o dinheiro ficou empoçado. Segundo analistas, as instituições financeiras não estariam repassando recursos nem para seus pares de pequeno e médio porte. De acordo com a Integral Trust, consultoria na área bancária, os custos de captação para os bancos pequenos e médios triplicaram. EXAME apurou com uma alta fonte do governo que, em boa parte, o dinheiro estaria parado nos grandes bancos oficiais, como Banco do Brasil, Caixa e Nossa Caixa - menos ágeis e mais burocráticos.

Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já reclamou dos grandes bancos brasileiros, segundo ele responsáveis por reter os recursos em carteira. "O Banco Central vai ter de tomar uma atitude e tomar o dinheiro de volta", ameaçou Lula, caso os recursos liberados ao sistema bancário não sejam efetivamente usados para a concessão de empréstimos. As ameaças presidenciais, pelo menos até agora, não resolveram a questão. A Predileto Alimentos, dona do Moinhos Cruzeiro do Sul, é uma das muitas companhias que já sentem o represamento dos recursos. "Os bancos estão mais restritivos. Ficou mais difícil e mais caro renovar operações de crédito", diz Antenor de Barros Leal, vice-presidente da empresa. "Só quem está capitalizado está conseguindo atravessar esse momento", diz Rubens Menin, presidente da construtora MRV. A empresa fez seu IPO em 2007 e levantou 1,2 bilhão de reais - parte do dinheiro está sendo utilizada agora nas despesas correntes. O setor de construção foi um dos primeiros a receber a notícia de que haveria um pacote de socorro - seriam 3 bilhões de reais para a construção civil -, mas até agora os recursos, em teoria destinados a linhas de capital de giro e compra de recebíveis das construtoras, não saíram do papel. 

Tratamentos contra a crise? 

É um consenso entre os economistas que a medida mais eficaz para dar vazão aos recursos para a economia seria a redução ainda maior do compulsório. Hoje, o Brasil represa cerca de 8% do PIB em forma de depósitos compulsórios - expediente pelo qual o Banco Central recolhe diariamente (e sem remuneração nenhuma) parte do dinheiro dos clientes das instituições financeiras. Só em depósitos à vista são 42% do total aplicado. Com isso, sobra menos dinheiro no caixa dos bancos para emprestar e aplicar em outras operações que dêem rentabilidade. "O compulsório, na maioria dos países desenvolvidos, limita-se a 2% dos depósitos à vista", diz o economista Roberto Troster, da consultoria especializada em instituições financeiras Integral Trust. O governo já iniciou esse processo de redução - até o final de outubro, o valor retido correspondia a 45% dos depósitos à vista. A expectativa é de novas reduções nas próximas semanas.

Mesmo que novas medidas sejam anunciadas, ninguém espera uma mudança radical no novo cenário de crédito na economia. Por um motivo simples: com a crise, não apenas os bancos perderam interesse em oferecer dinheiro ao mercado - também o cidadão comum refreou sua ânsia de contrair novas dívidas. "Dar liquidez ao mercado resolve só metade da equação. A questão é que a demanda por crédito também está caindo", diz Fernando Montero, economista-chefe da Convenção Corretora. Isso já foi captado pelos índices de confiança ao consumidor, que em outubro e novembro passaram a indicar queda no otimismo. No começo do mês, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) apurou em 30 instituições financeiras que a expansão do crédito total deverá ser de 19% em 2009 - bem abaixo da estimativa de crescimento para este ano, de cerca de 35%.

Comparado com o restante do mundo, o cenário brasileiro está longe de ser uma tragédia. Afinal, quando muita gente lá fora já vive um ambiente de recessão, o Brasil discute qual a intensidade da desaceleração em relação ao bom momento da economia até a eclosão da crise. "O crédito vai crescer menos no próximo ano, mas ainda estaremos muito melhores que outros países", diz Rubens Sardenberg, economista-chefe da Febraban. Boa parte dos países ricos está injetando rios de dinheiro em suas economias e recorrendo a operações de salvamento do setor privado. Os Estados Unidos, epicentro da crise, já gastaram mais de 1 trilhão de dólares em socorro a bancos e seguradoras - o último capítulo foi o anúncio de um plano de ajuda ao Citigroup, que prevê injeção de 20 bilhões de dólares e garantia para hipotecas no valor de 306 bilhões. GM e Chrysler, montadoras à beira da falência, pressionam o Congresso americano por recursos que lhes garantam alguma sobrevida - ainda que não se saiba por quanto tempo. A fila de aspirantes aos recursos públicos de salvamento inclui desde a Associação Nacional de Distribuidores de Automóveis até fabricantes de barcos e um grupo de encanadores de origem hispânica. A França acabou de anunciar um pacote de 25 bilhões de dólares para ajudar empresas em dificuldade. O temor generalizado é que companhias em crise agravem ainda mais os indicadores de emprego e de atividade. "Pode até haver uma pequena melhora imediata, mas é ilusão achar que só colocar mais dinheiro fará o país crescer além de seu potencial", diz o economista José Júlio Senna, ex-diretor do Banco Central e sócio da MCM Consultores. Isso vale para o mundo todo e para o Brasil também.

*Esse texto será publicado na edição de EXAME que chega às bancas nesta quinta-feira (27/11)

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