
O recifense Artur Maroja e sua família viviam da produção cafeeira e avícola quando começaram a passar os fins de semana em Porto de Galinhas, a 65 quilômetros ao sul da capital pernambucana. Isso foi no início dos anos 80, quando a grande atração da vila de pescadores era um restaurante simples. Encorajado pela beleza do lugar, Maroja tomou uma decisão: vendeu suas propriedades e construiu um hotel de 32 apartamentos à beira-mar. "O hotel permanecia vazio da Semana Santa até o 7 de Setembro. E, mesmo na alta temporada, os turistas ficavam só o fim de semana", diz Otaviano, filho de Maroja e administrador do hotel. Hoje, o Solar Porto de Galinhas fica lotado boa parte do ano, tem 140 apartamentos e a companhia de outros 150 empreendimentos. Juntos, esses hotéis faturam cerca de 150 milhões de reais ao ano e geram 5 000 empregos diretos e outros 20 000 indiretos. O tal botequim de pescadores ainda está lá, mas hoje o distrito de Porto de Galinhas, que pertence ao município de Ipojuca, tem mais de 100 restaurantes à disposição dos turistas. "Não é exagero dizer que quase 100% da economia daqui gira em torno dos visitantes que chegam todos os dias", diz Marcos Tiburtius, presidente da associação local de hotéis.
O aumento da concorrência entre os hotéis fez com que a cidade de Ipojuca, impulsionada por seu balneário, passasse por uma transformação na infra-estrutura e em sua vocação. Hoje, segundo estimativas da associação de comerciantes, a cidade conta com mais de 1 000 pontos de comércio, entre os formais e os informais. São pequenos negócios que giram em torno do grande fluxo de turistas, calculado em 468 000 por ano. Há ex-vendedores de praia que mantêm lojas de artesanato e design, dezenas de butiques de roupas esportivas, miniagências de turismo e até cafeteria, um tipo de negócio surpreendente para uma região tão quente. A própria dona da cafeteria, a ex-cantora Eliane Sultano, relembra a desconfiança com que seu negócio foi recebido. "Importei uma máquina de café que na época custou 6 000 reais e todos acharam que eu estava louca. No começo, servia meia dúzia de cafés por dia, mas, depois do ano 2000, a cafeteria passou a ser um ponto de referência na vila", diz a empresária, que chega a vender 300 cafés por dia na alta temporada. A clientela também vem mudando. Graças a investimentos em divulgação no exterior, 30% dos visitantes hoje são estrangeiros.
Quando uma cidade sai da fase romântica do turismo (aquela marcada pela chegada de poucos grupos, com algumas pousadas) para um patamar mais profissional, um círculo virtuoso se inicia. Oportunidades de trabalho aparecem, a renda sobe, o consumo cresce e novos negócios são gerados na esteira dos que já estão estabelecidos. O município de Mata de São João, no sul da Bahia, talvez seja o exemplo mais acabado desse processo. Localizada a cerca de 100 quilômetros de Salvador, Mata de São João vivia da pesca e da agricultura até o início da década de 80. Em 1986, o empresário alemão Klaus Peters abriu o Praia do Forte EcoResort, o primeiro da região. Desde então, a cidade não parou de crescer. O número de negócios ligados ao turismo explodiu. São mais de 150 empresas, que empregam cerca de 6 000 pessoas, quase 20% da população da cidade. Além do EcoResort, hoje controlado pelo grupo português Espírito Santo, a região abriga dois outros imensos complexos hoteleiros: o Costa do Sauípe (com 1 600 quartos) e o Iberostar (com 400). "O mais difícil foi construir o destino. Hoje o local é uma atração", diz Ricardo Espírito Santo, do grupo Espírito Santo.
O ponto de transformação de Mata de São João, que tem uma população de 34 000 habitantes, aconteceu com a inauguração do complexo Costa do Sauípe, empreendimento controlado pelo fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (Previ) e explorado por cadeias internacionais, como a francesa Accor, a americana Marriott e a jamaicana SuperClubs. A 25 quilômetros da Praia do Forte e em uma região de comunidades de pescadores, o megarresort transformou a vida dos moradores da cidade. Somente o investimento inicial, de cerca de 350 milhões de reais, gerou aproximadamente 3 000 empregos -- a maioria para gente dali mesmo. Segundo a administração do complexo, 47% desses funcionários são residentes no entorno. E ainda está prevista a construção de novos apartamentos nos próximos anos, o que pode beneficiar ainda mais os moradores da região. "Como pioneiro, Sauípe foi propulsor desse novo pólo turístico, desbravando a região para outros empreendimentos e trazendo um projeto inovador de desenvolvimento, que virou modelo para todo o litoral norte da Bahia", afirma o presidente do Costa do Sauípe, Alexandre Zubaran.
Uma questão que se coloca a todos os grupos que investem no turismo brasileiro é a qualidade da mão-de-obra. Para ter uma idéia do tamanho dessa tarefa, basta olhar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dessas regiões. Esse índice, criado pela Organização das Nações Unidas, cruza dados como nível educacional da população, saneamento básico e outros indicadores para mensurar a qualidade de vida nas cidades do mundo. Mesmo com todos os investimentos que vêm sendo feitos, o IDH desses municípios ainda é baixo. Em 2000 (último ano do levantamento), era 0,67 em Mata de São João, o que o colocava em 58o lugar na Bahia e em 3 432o entre os cerca de 5 500 municípios do Brasil. Mas quando se olham alguns índices isolados, como a taxa de analfabetismo, percebe-se que a importância desses investimentos vai muito além do que se imagina. Em 1991, Mata de São João tinha 25,1% de analfabetos em sua população -- um de cada quatro moradores. O índice melhorou e hoje está em 14,9% da população. Boa parte desse avanço deve-se a projetos de capacitação que foram realizados pelos complexos hoteleiros presentes na região. Com programas sociais mesclados a aulas de português e matemática, a qualidade da mão-de-obra cresceu. Hoje, os novos empreendimentos que se instalam na região, como o Iberostar da Praia do Forte, precisam trazer bem menos gente de fora para preencher seus quadros. Em Porto de Galinhas, por exemplo, projetos dessa natureza capacitaram e treinaram 7 000 profissionais -- entre camareiras, garçons, recepcionistas, jangadeiros, bugueiros e comerciantes.
Outra mudança que acontece quando um município atinge o grau de destino turístico é o aumento na arrecadação. Como o número de negócios e de visitantes aumenta, a receita com impostos cresce. Se a administração dessas cidades faz bom uso da nova fonte de renda, o município consegue realizar obras de saneamento, de transportes e de urbanismo que modernizam a região. Em Barretos, pólo da indústria agropecuária paulista, a Festa do Peão Boiadeiro tem atraído cada vez mais turistas -- e dinheiro. Em 1990, eram 15 000. No ano 2000, esse número saltou para quase meio milhão de pessoas e, no ano passado, já foram 700 000 turistas. Por causa desse avanço, a arrecadação de ICMS na cidade aumentou de 5,3 milhões de reais em 2000 para 15,5 milhões no ano passado -- três vezes mais. Esse dinheiro se traduziu em investimentos para obras como ampliação de hospitais e pavimentação das ruas e avenidas principais. "O turista que veio aqui em 1990 e continua a vir hoje percebeu como a cidade se modernizou nesses anos", diz Antônio Fernando Bonvino, secretário de Turismo de Barretos. A idéia agora é investir na diversificação de eventos a fim de receber turistas o ano todo. Levando-se em consideração o que eles trazem (dinheiro e investimentos), faz todo o sentido.

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