
Passear pelas ruas das grandes cidades da África do Sul é como visitar as grandes metrópoles brasileiras -- no mau sentido. Não é exagero dizer que, em certa medida, os visitantes correm mais riscos nas ruas do país do que nos safáris. Em Johannesburgo, a taxa de homicídios por 10 0000 habitantes é o dobro da registrada em São Paulo. A cidade também abriga uma das maiores favelas do mundo, Soweto, com cerca de 4 milhões de habitantes -- quase 30 vezes mais que a população da Rocinha, no Rio de Janeiro. Lugares inseguros como esses costumam afugentar os turistas, mas não é o que vem acontecendo na África do Sul. Diferentemente do que ocorre no Brasil, os altos índices de violência não representam por lá uma grande barreira para a expansão dessa indústria. Em 2006, 7,6 milhões de visitantes estrangeiros se aventuraram em safáris, bebericaram nas vinícolas da rota do vinho ou passearam pela Cidade do Cabo, um dos cartões-postais do país. É um número sete vezes maior que o registrado no início dos anos 90, quando brancos e negros andavam em calçadas diferentes por causa do regime de segregação racial.
O que explica o fenômeno da África do Sul, onde a indústria de turismo consegue conviver com altas taxas de criminalidade e de desigualdade social? A principal resposta é que, diante da importância econômica das receitas de turismo para o país, o governo e os empresários locais resolveram agir de forma pragmática, blindando os visitantes estrangeiros contra a brutalidade das ruas. Protegê-los, a todo custo, virou uma das prioridades nacionais. Os principais pontos turísticos são vigiados por policiais e, principalmente, por empresas de segurança privada -- uma indústria que fatura 5 bilhões de dólares por ano e cujo efetivo de 300 000 homens é duas vezes maior que o da polícia. Isso faz com que sejam raras as ocorrências com turistas no Cabo da Boa Esperança ou no parque nacional Table Mountain, na Cidade do Cabo. O governo também atua fortemente no setor da propaganda, alertando os visitantes sobre zonas de risco e espalhando e dando conselhos básicos de segurança para os estrangeiros evitarem situações de risco.
Ao mesmo tempo que coloca em prática medidas para garantir a integridade dos turistas, o governo atua nas políticas de segurança de médio e longo prazo, tentando debelar de uma vez por todas os graves problemas da criminalidade. Em 2007, serão investidos 4 bilhões de dólares na melhoria da polícia -- quase o dobro do valor gasto há sete anos. O dinheiro será usado na compra de novas viaturas, helicópteros, laboratórios de perícia e equipamentos para centros de comando montados em áreas estratégicas. Até 2010, ano em que o país organizará a primeira Copa do Mundo de futebol no continente africano, o montante canalizado para tentar diminuir os índices de violência vai aumentar 40%. "Os investimentos mostram que o governo está enfrentando de verdade a situação", falou a EXAME Johan Burger, especialista do Instituto de Estudos para Segurança da África do Sul.
Outras experiências internacionais mostram que os investimentos na melhoria da segurança pública representam um ótimo negócio, não apenas em termos de impacto social. Em geral, cada centavo empregado nesse setor é recuperado em forma de divisas geradas pelo aumento do número de turistas. Foi o que ocorreu recentemente na Colômbia. Desde que chegou ao poder, em 2002, o presidente Álvaro Uribe implementou, com a ajuda dos Estados Unidos, uma política agressiva para conter a criminalidade. Desde então, as taxas de homicídios e de seqüestros no país caíram, respectivamente, 38% e 72%. A entrada de turistas estrangeiros dobrou nos últimos cinco anos, de 566 000 para mais de 1 milhão de visitantes. Com a criminalidade em níveis aceitáveis e o retorno dos turistas, a rede hoteleira voltou a receber investimentos -- foram 18 bilhões de dólares entre 2002 e 2006.
A exemplo da Colômbia, a África do Sul já começa a colher os primeiros frutos de seu esforço na área de segurança. Alguns dos principais índices de criminalidade ainda são elevados, mas diminuíram consideravelmente nos últimos cinco anos (veja quadro). Coincidência ou não, o número de turistas cresce na mesma medida em que aumenta a sensação de segurança no país. Segundo analistas, no entanto, ainda é cedo para comemorar vitória na guerra contra o crime. Isso porque alguns indicadores sociais da África do Sul apontam para um futuro incerto. Apesar de ser o país mais rico da África, com PIB de 570 bilhões de dólares, o desemprego atinge 30% dos sul-africanos. Pior: dos 45 milhões de habitantes, metade vive abaixo da linha de pobreza -- ou seja, com menos de 1 dólar por dia. "A criminalidade é um problema mundial", disse a EXAME Mark Williams, gerente do departamento de turismo da África do Sul. "Mas tenho certeza de que, a exemplo do que fizemos com o racismo, vamos conseguir vencê-la."
| Menos violência, mais turistas | |||
| A África do Sul vem diminuindo os principais índices de criminalidade. O reflexo disso é o aumento no número de pessoas que visitam o país | |||
| Índices de criminalidade | |||
| Assaltos | Assassinatos | Seqüestros | |
| 2001 | 262000 | 21500 | 4500 |
| 2005 | 227500 | 18500 | 2000 |
| Queda | 13% | 14% | 55% |
| Movimento turístico | |||
| 2001 | 5,8 milhões | ||
| 2006 | 7,6 milhões | ||
| aumento de 31% | |||
| Fontes: polícia e South African Tourism | |||

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